UMA INTERPRETAÇÃO DEMOCRÁTICA DOS DOIS TURNOS DE VOTAÇÃO DAS EMENDAS CONSTITUCIONAIS
A DEMOCRATIC INTERPRETATION OF THE TWO-ROUND VOTING REQUIREMENT FOR CONSTITUTIONAL AMENDMENTS
DOI:
https://doi.org/10.64160/rdl.v27.n2.e35-56.2025Palavras-chave:
interstício temporal, atos interna corporis, Controle de constitucionalidade, democracia deliberativa, pré-compromissos constitucionaisResumo
Este artigo, por meio de pesquisa qualitativa baseada em revisão bibliográfica, explora o papel dos dois turnos de votação no processo de mudança da Constituição, propondo uma interpretação que valoriza sua função democrática. Para isso, adota-se uma abordagem crítica ao examinar como a prática legislativa atual – que cumpre formalmente a exigência dos dois turnos – compromete a qualidade do processo deliberativo. Primeiramente, o texto aborda a ideia de defesa judicial da integridade democrática, com base no pensamento de John Hart Ely, que entende o controle de constitucionalidade como um meio para proteger o processo político. Em seguida, examina como o giro deliberativo da democracia redireciona o foco para a qualidade das discussões prévias às decisões legislativas e identifica os pré-compromissos constitucionais procedimentais como instrumentos que promovem um ambiente de deliberação mais racional. Com base nessa perspectiva, o artigo introduz o modelo semiprocedimental de controle de constitucionalidade, que permite ao Judiciário assegurar a consistência das deliberações sem comprometer a autonomia legislativa. Ao final, conclui-se que a doutrina dos atos interna corporis, no contexto das Emendas Constitucionais, deve ser rejeitada, a fim de promover uma intervenção judicial que assegure a qualidade deliberativa – neste caso, traduzida em amadurecimento das ideias e incentivo à responsividade da representação legislativa.
Referências
BAR-SIMAN-TOV, Ittai. The puzzling resistance to judicial review of the legislative process. Boston University Law Review, Boston, USA, v. 91, n. 6, p. 1915-1974, 11 maio 2011. Disponível em: https://www.bu.edu/law/journals-archive/bulr/volume91n6/documents/BAR-SIMAN-TOV.pdf. Acesso em: 26 out. 2024.
BAR-SIMAN-TOV, Ittai. Semiprocedural judicial review. Legisprudence, v. 6, n. 3, p. 271-300, 14 set. 2015. Disponível em: https://doi.org/10.5235/17521467.6.3.271. Disponível em: 21 out. 2024.
BASTOS, Celso Ribeiro; MARTINS, Ives Gandra. Comentários à Constituição do Brasil. São Paulo: Editora Saraiva, 1995, v. 4, t. I.
BERGER, Raoul. Ely’s “theory of judicial review”. Ohio State Law Journal, v. 42, p. 87-130, 1981. Disponível em: https://kb.osu.edu/bitstream/handle/1811/65127/1/OSLJ_V42N1_0087.pdf. Acesso em: 15 out. 2024.
BICKEL, Alexander M. The least dangerous branch: the Supreme Court at the bar of politics. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 1986 [1962].
BRUST, Leo. Controle de constitucionalidade: a tipologia das decisões do STF. Curitiba: Juruá, 2014.
CAMPBELL, Tom. Legal positivism and deliberative democracy. Current Legal Problems, v. 51, n. 1, 1998, p. 65-92. Disponível em: https://doi.org/10.1093/clp/51.1.65. Acesso em: 28 set. 2024.
COMELLA, Víctor Ferreres. Justicia constitucional y democracia. 3. ed. Madrid: Centro de Estudios Políticos y Constitucionales, 2021.
DIXON, Rosalind. Responsive judicial review: democracy and dysfunction in the modern age. Oxford: Oxford University Press, 2023.
DWORKIN, Ronald. Taking rights seriously. 2. ed. Cambridge: Harvard University Press, 1978.
DWORKIN, Ronald. Equality, democracy, and constitution: we the people in court. Alberta Law Review, v. 28, n. 2, p. 324-346, 01 fev. 1990. Disponível em: https://doi.org/10.29173/alr1605. Acesso em: 31 set. 2024.
ELSTER, Jon. Ulysses and the sirens: studies in rationality and irrationality. Cambridge: Cambridge University Press, 1979.
ELSTER, Jon. The market and the forum: three varieties of political theory. In: BOHMAN, James; REHG, William (orgs.). Deliberative democracy: essays on reason and politics. Cambridge: The MIT Press, 1997. Cap. 1, p. 3-33. Disponível em: https://doi.org/10.7551/mitpress/2324.003.0004. Acesso em: 18 out. 2024.
ESTLUND, David; LANDEMORE, Hélene. The epistemic value of democratic deliberation. In: BACHTIGER, Andre; DRYZEK John S., MANSBRIDGE, Jane; WARREN, Mark. The Oxford handbook of deliberative democracy. Oxford: Oxford University Press, 2018. Cap. 7, p. 113–131. Disponível em: https://doi.org/10.1093/oxfordhb/9780198747369.013.26. Acesso em: 17 set. 2024.
ELY, John Hart. Democracy and distrust: a theory of judicial review. Cambrige: Harvard University Press, 1980.
FRIEDMAN, Barry. The history of the countermajoritarian difficulty: the birth of an academic obsession, part five. The Yale Law Journal, v. 112, n. 2, p. 153-259, 16 out. 2002. Disponível em: https://dx.doi.org/10.2139/ssrn.312024. Acesso em: 25 out. 2024.
GARDBAUM, Stephen. Comparative political process theory. International Journal of Constitutional Law, v. 18, n. 4, p. 1429–1457, 18 dez. 2020. Disponível em: https://doi.org/10.1093/icon/moaa084. Acesso em: 11 out. 2024.
GIUFFRÉ, C. Ignacio. The coming of age of deliberative constitutionalism. Canadian Journal of Law & Jurisprudence, Ahead of Print, p. 1-35, out. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1017/cjlj.2024.14. Acesso em: 28 dez. 2024.
HAILBRONNER, Michaela. Combatting malfunction or optimizing democracy? Lessons from Germany for a comparative political process theory. International Journal of Constitutional Law, v. 19, n. 2, p. 495–514, 10 jun. 2021. Disponível em: http://doi.org/10.1093/icon/moab043. Acesso em: 19 set. 2024.
HOGG, Peter W.; BUSHELL, Allison A. The charter dialogue between courts and legislatures (or perhaps the charter of rights isn't such a bad thing after all). Osgoode Hall Law Journal, v. 35, n. 1, p. 75-124, 1997. Disponível em: https://doi.org/10.60082/2817-5069.1612. Acesso em: 29 jul. 2024.
HOLMES, Stephen. Passions and constraint: on the theory of liberal democracy. Chicago: Chicago University Press, 1995.
LEVY, Ron. Rights and deliberative systems. Journal of Deliberative Democracy, v. 18, n. 1, p. 27-37, 25 mar. 2022. Disponível em: https://doi.org/10.16997/jdd.1086. Acesso em: 03 nov. 2024.
KLARMAN, Michael J. The puzzling resistance to political process theory. Virginia Law Review, v. 77, n. 4, p. 747-832, maio 1991. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/1073297. Acesso em: 04 nov. 2024.
MANIN, Bernard. On legitimacy and political deliberation. Trad. de Elly Stein e Jane Mansbridge. Political Theory, v. 15, n. 3, p. 338-368, ago. 1987. Disponível em: https://doi.org/10.1177/0090591787015003005. Acesso em: 02 out. 2024.
MARMOR, Andrei. Randomized judicial review. In: BUSTAMANTE, Thomas; FERNANDES, Bernardo Gonçalves. Democratizing constitutional law: perspectives on legal theory and the legitimacy of constitutionalism. New York: Springer: 2016. Cap. 2, p. 13-28.
MENDES, Conrado Hübner. Controle de constitucionalidade e democracia. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2008.
NASCIMENTO, Roberta Simões. O controle semiprocedimental da legislação: lineamentos introdutórios. In: LEAL, Fernando; MENDONÇA, José Vicente Santos (orgs.). Transformações do Direito Administrativo – controle de administração pública: diagnósticos e desafios. São Paulo: Editora FGV, 2023. Cap. 7, p. 108-121.
NOZICK, Robert. Anarchy, state and utopia. New York: Basic Books, 1974.
PACOLA, Bernard Assef. Deferência judicial à qualidade deliberativa do processo legislativo. Revista de Informação Legislativa, v. 61, n. 244, p. 79/-107, dez. 2024. Disponível em: https://doi.org/10.70015/ril_v61_n244_p79. Acesso em: 27 dez. 2024.
RAWLS, John. A theory of justice. Cambridge: Harvard University Press, 1971.
SADURSKI, Wojciech. Judicial review and the protection of constitutional rights. Oxford Journal of Legal Studies, v. 22, n. 2, p. 275–299, 2002. Disponível em: https://doi.org/10.1093/ojls/22.2.275. Acesso em: 02 nov. 2024.
SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à Constituição. 9. ed. São Paulo: Malheiros Editores, 2014.
SOUTO, João Carlos. Suprema Corte dos Estados Unidos: principais decisões. 4. ed. Rio de Janeiro: Atlas, 2021.
SUNSTEIN, Cass R. The partial constitution. Cambridge: Harvard University Press, 1993.
TRIBE, Laurence. The puzzling persistence of process-based constitutional theories. The Yale Law Journal, v. 89, v. 6, pp. 1063-1080, maio 1980. Disponível em: http://www.jstor.org/stable/796023. Acesso em: 20 maio 2023.
TUSHNET, Mark V. Red, white, and blue: a critical analysis of constitutional Law. Cambridge: Harvard University Press, 1988.
WECHSLER, Herbert. Toward neutral principles of constitutional law. Harvard Law Review, v. 73, n. 1, p. 1-35, nov. 1959. Disponível em: https://doi.org/10.2307/1337945. Acesso em: 30 ago. 2024.
Downloads
Publicado
Como Citar
Edição
Seção
Licença
Copyright (c) 2025 Revista Direito e Liberdade

Este trabalho está licenciado sob uma licença Creative Commons Attribution 4.0 International License.
O(s) autor (es), na qualidade de titular (es) do direito de autor do artigo submetido à publicação, de acordo com a Lei nº. 9610/98, concorda(m) em ceder os direitos de publicação à Revista Direito e Liberdade e autoriza(m) que o mesmo seja divulgado gratuitamente, sem ressarcimento dos direitos autorais, por meio do Portal das Revistas Eletrônicas da ESMARN, para fins de leitura, impressão e/ou download pela Internet, a partir da data da aceitação do artigo pela Equipe da Revista.
